A morte é a temática memorialística a partir da qual a narradora personagem, Alice, conta uma trajetória de duas décadas vividas da infância à adultez – um tempo significativo para o desabrochar de uma criança e o amadurecimento de uma mulher.
Ao longo desse tempo, que se passa entre os anos 70 e 90 em São Paulo, Capital, a vida de Alice é entrelaçada por muitas mortes, como a da cachorrinha Fox Paulistinha, na infância; do pai, no início da adolescência; e do melhor amigo, na juventude. Mortes de grandes artistas que influenciam os jovens da época, como Jonh Lennon e Cazuza, também marcam a história. Inclusive, Dakota, que dá nome ao livro, é o edifício onde Lennon morava antes de morrer.
Além de um mergulho no contexto cultural de uma época, o livro propõe um mergulho no amadurecimento de uma mulher. Assim como a criança Alice vai ganhando maturidade como pessoa, ao longo desses 20 anos, a narrativa vai se enriquecendo de densidade emocional, atribuída em gotas, a cada transformação sofrida pela personagem.
Em outra instância, é como se a autora entregasse aos seus leitores, junto com o desenrolar da história, um colírio linguístico, capaz de ir entregando, a gotas, o que somos capazes de ver a cada fase da vida, capítulo a capítulo. Como leitora, me deparei com uma certa sofisticação narrativa (que impressiona).
A obra é dividida em quatro partes, cuja narrativa se desloca brilhantemente. As partes “um”, “dois” e “quatro” são narradas pela própria personagem – Alice; enquanto a parte “três” sofre um deslocamento narrativo para um narrador onisciente que revela vinte e tantas coisas sobre ela.
Ao final, uma revelação surpreendente feita através de um personagem importantíssimo da vida de Alice – Antônio, seu namorado, marido e escritor, amarra o fio da história.
Aliás, até essa revelação, o que Alice pensa sobre Antônio é revelado aos poucos, na introdução de cada capítulo (em gotas), o que contribui ainda mais para a riqueza da construção narrativa da obra.
Ouso dizer: a narrativa de Dakota Blues, com seu deslocamento arquitetônico, é o que dá grande valor literário à obra.
Como pesquisa, vale recomendar a seguinte análise: intensidade e extensidade narrativa na obra Dakota Blues, de Simone AZ. A obra merece esse mergulho semiótico. A edição que eu li foi preparada pela TAG em 2025. Grande curadoria de Giovana Madalosso.
Como mulher, a mim fica a pergunta trazida pela obra: o que compõe a nossa maturidade ao longo dos acontecimentos pelos quais passamos? Tomar consciência disso pode nos fazer ver o mundo de novas formas e isso tem um nome: amadurecimento.